Quantos personagens eu conheci lá.
Podemos falar da Preta, do Lobão e tantos outros que lá deixaram sua digital, no balcão, no copo ou em uma bituca de cigarro.
Hoje quero contar o que assisti, não do Lobão, mas da sociedade que vivia em volta dele.
Quantas vezes não fui a padaria, comprar pão, buscar leite, ou 250 gramas de pó de café, que naquela época, era pesado dentro do saquinho de papel, ou buscar a baguete, enrolada no papel de seda cor de bunda.
Na nossa rua, como em qualquer outra, haviam muitos curiosos, fofoqueiros, bêbados, e loucos.
Lobão era um desses, na verdade, dois!
Ele era louco, mas eu também o via como bêbado, quase todos os dias quando não fugia dele.
Era engraçado, quando o Lobão apontava na padaria da esquina, nós corríamos pra dentro de casa. Ele tinha um tique, sem nenhum som ele parecia espirrar, mas era só um tique. Ele também andava balançando, era preto e grande, um homem forte, nada de gordo, forte! Ele gritava, e quando nos via na rua, gritava mais alto e corria como se um dia ele fosse nos pegar. Ninguém enfrentava o Lobão, afinal, todos sabiam que ele era louco, e depois também fui saber que ele era filho do delegado do bairro.
Trágico!
Pra muitos isso seria sinal de proteção, mas para o Lobão, acho que nunca foi.
O Lobão tinha dois irmãos, um, era o João, e o outro, não sei o nome, mas era o orgulho do pai, todos homens fortes, mas o que não sei o nome, ... era o orgulho do pai!
Bem, essa é a minha história, a que assisti perto dos meus 9 anos.
Meu cachorro era louco também, louco pelo Lobão, era o único que tinha coragem naquela rua, afinal, o Lobão vinha, o povo corria pra dentro de casa (acho que todos sabiam quem era seu pai) menos o Snoopy, meu vira latas versão Snoopy. Só as cores preto e branco na verdade pareciam, mas ele era meu Snoopy. Um dia conto a versão padaria Real do Snoopy.
Voltando a coragem, o Snoopy tentava morder o Lobão, quase todos os dias, e ele era uma das sirenes que anunciavam a vinda do Lobão, ele começava rosnando e virava um corajoso cão de guarda na presença do Lobão. E só parava de latir quando a rua ficava silenciosa. Lembram que eu disse que o Lobão gritava?
Um dia teve uma briga na Real, e ouvimos uns tiros.
Não tenho como narrar está história, eu não conhecia os detalhes, mas posso contar a minha história sobre estes tiros...
Lobão gritou, um moço ficou bravo, comprou briga com um louco, ele só podia ser louco, mas o irmão do Lobão, lembram do orgulho do pai? Estava lá na Real.
Lobão.
Orgulho do pai armado.
Moço que comprou briga com um louco.
Quem tomou o tiro? O orgulho, afinal o machão também estava armado, mas pelo que me contaram, ele não estava bêbado.
O orgulho do pai morreu.
Muita tristeza! E um delegado enfurecido.
Um delegado triste.
Um delegado deprimido.
Um delegado revoltado.
Um delegado desgostoso.
E, um delegado enfurecido de novo.
Ele não aceitava perder o filho bom, por um filho ruim.
Mas Lobão não era ruim.
Ele nunca "pegou" ninguém, ele se divertia com o medo das crianças, ele voltava cantando aos gritos e chutava o vento enquanto o Snoopy tentava com sua meia coragem, morder suas canelas.
Ele cantava e quase espirrava a cada 10 segundos, ou no meio de uma palavra.
Lobão descia nossa rua pra casa.
Um dia, ouvimos gritos, pessoas desesperadas, todos os curiosos andando de um lado para o outro, desespero, o velho delegado endoidou, amarrou o filho no poste para por de castigo.
Os gritos, eram do Lobão, cantando e provocando o delegado, ele se divertia.
O pai, cada vez mais enfurecido banhou seu filho com gasolina, todos achavam um absurdo, menos Lobão que continuava provocando o delegado.
Você matou meu filho! Culpa sua! Gritava ele lá de longe.
Enfurecido um, se divertindo o outro, ou talvez em pânico, como disse antes, não é a história Real, é a que eu conheço.
O delegado surtou, ateou fogo no próprio filho.
Todos gritavam, e agora o Lobão não cantava mais.
Não adiantava ligar pra polícia!
Quem em sã consciência teria essa coragem?
Não adiantava ligar para a delegacia.
A corda que segurava Lobão soltou, queimada, ou talvez meio solta, não sei dizer.
Não posso dizer também quanto tempo passou, não falávamos no assunto, mas o Snoopy não falava não é? Ele latia como um doido e rosnava avisando que lá vinha novamente o Lobão.
Gritando, bêbado e agora ele tinha a pele diferente. Mas não para o Snoopy.
O Lobão não chutava mais o Snoopy, ele perdeu aquela diversão de antes.
Até que num domingo, uma nova gritaria, e eu ouvia uns barulhos, lembrava as biribinhas que eu arremessava no chão.
Meu pai saiu, ele sempre saia, mas nós não podíamos, minha mãe em pânico, aquela sensação de novo. Segura as meninas aí.
Bem, beeeem, por favor não vai!
Mais biribinha, era dia, estava claro. Meu pai volta.
O Lobão, o pai tá tentando acertar ele, e ele tá dançando no meio da rua.
O pai, de dentro de casa atirava.
A casa deles tinha um terreno grande na frente, a casa ficava lá embaixo, o Lobão dançava na calçada, e quando o pai atirava ele corria para trás do poste e ria. O mesmo poste. O pai não acertava.Lembram?
Estavam brincando?
Acertoooou! Aí meu Deus! O Lobão tá sangrando! E continua dançando.
Minha mãe, corria de um lado para o outro, e mais biribinha!
Um nó no estômago, uma sensação estranha, e mais biririnha!
O Lobão está no chão.
Ninguém saia na rua.
Tempo, tempo, quanto? Não sei!
Lobão morreu!
Vi o pai dele uns dias depois, quando ele olhava para as pessoas e cumprimentava, as pessoas devolviam o olhar e o respondiam. Ninguém falava com ele de graça.
Alto, magro, ele olhava pequeno, peito aberto e andava com passos grandes.
Ele dava medo!
Mas ele foi sumindo, eu também ia querer sumir com uma história dessas na minha mochila.
Ele enterrou dois filhos assassinados.
Não foi uma história feliz.
Não é uma história feliz.
Ela é Real! Ela é triste!
Todo mundo tem esperança que ela termine bem, mas é essa história que ninguém conta e que mostra exatamente quem são os vizinhos do Lobão. Que nunca foi protegido, mesmo sendo filho do delegado.
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