Quanto a minha avó materna, desde pequena sempre fui sua preferida. Lembro de quando comecei a pré-escola, se leram o meu post sobre a garoa, sabe o quanto eu não gostava de ir à escola. Porém, quando comecei a cursar a minha primeira série, conheci a professora que me fez gostar das aulas, olhos azuis, cabelos claros, olhar de mãe, sempre acolhedor e paciente. Ela era linda! Eu adorava ir a escola, e foi nesta época que ganhei a minha primeira lousa de brincar.
Minha avó tinha 2 bonecas que me lembro, uma que ela havia comprado careca e tinha colado uma peruca no formato panelinha e outra daquelas bonecas sinistras que hoje em dia aparecem em filmes de terror, esta era sempre a filha dela, mas com a condição de eu não pentear os cabelos (peruca) da minha filha. No Natal de 1986 eu ganhei uma boneca preta, que deitava e fechava os olhinhos, ela tinha bico de bebê que chora e cheirava tuti-fruti, foi ela quem escolheu a boneca para minha mãe comprar, ou seja, continuei mãe da que nunca podia pentear os cabelos. Se bem que, a que passou a ser seu bebê tinha os cabelos bem crespos e também não dava para pentear. Minha avó faleceu de acidente em maio de 1987, ela já sabia escrever uma carta, pois depois de adulta fiquei sabendo que ela era analfabeta, por isso gostava tanto das minhas aulas e lições. Às vezes deitávamos na varanda e ficávamos achando pessoas, objetos ou animais nas nuvens, víamos de tudo, desde pássaros, a uma escola completa, com carteiras, cadeiras e até uma professora que passava lições no quadro-negro.
Depois do falecimento desta minha avó não tive mais vontade de estudar, nem de comer, e me lembro da minha mãe grávida e eu saía na rua procurando minha avó atrás dos postes e no quintal das pessoas pensando que ela apareceria brincando e dizendo que era mais uma brincadeira, para acabar com esta brincadeira logo, eu usava os vestidos dela que minha mãe havia levado para nossa casa, eu pensava, ela vai ficar muito brava e vai vir tirar de mim, os sapatos então, eu nunca tive tantos tamancos para brincar. Hoje penso no quanto tornei as coisas mais difíceis para minha mãe, que trouxe para nossa casa a benzedeira para resolver o meu problema e ela disse: - Ela só quer chamar a atenção! Deixe-a.
Depois disso, adotei um avô!
explicando melhor, quando minha mãe veio da Bahia com seus 13 anos, veio para trabalhar de domestica na casa das pessoas e "tentar a vida" em São Paulo. Minha tia mais velha já tinha vindo há mais tempo e minha mãe veio depois, seu maior sonho nesta época era buscar minha avó, que tinha ficado na “terrinha”, forma carinhosa que minha mãe chama sua cidade natal, Ilhéus, Itabuna, Vitória da Conquista... Em outro Post falo das histórias da minha mãe desta época, que morro de rir de ouvi-la dizer. Ela trabalhou alguns anos na casa deste meu avô, que inclusive foi lá que veio a conhecer a família do meu pai, ele era sogro da minha tia Sônia, irmã de meu pai. Lindo! Olhos azuis como o céu, poucos cabelos brancos na nuca e uns fiozinhos que brilhavam em cima da careca reluzente. Um dentão de ouro que também brilhava várias vezes durante nossas conversas. Ele sempre lia um pedaço da Bíblia quando estávamos juntos e me explicava aquele trecho. Depois tomávamos um café fresco que ele passava, não tem café mais gostoso que o dele, até hoje. Ele fervia o pó junto com a água e depois passava no coador de pano. Ele passava o café e gritava para minha tia na casa de cima... Tem café freeeesco! Dificilmente as pessoas não desciam para tomar um cafezinho ou subíamos eu e ele com a garrafa para a cozinha da tia para todos tomarem o café gostoso.
Quando tinha mais tempo, pedia para ele contar alguma de suas histórias de 1926, ou de 1930 e bolinha. Ele sempre contava a história de alguém em que ele fez parte por um momento. A gravidez de uma amiga do Paraná, ou a doença de um amigo de Tupã, ou o casamento de uma neta adotiva de ... Ah! Não me lembro o nome da cidade. Era sempre muito bom e tinha a sensação de que saía de sua casa pronta para mais uma semana cheia de trabalho que seria moleza para mim. Ele me enchia de energia e vigor e me deixava tão recarregada de felicidade..
Sempre me ponho a pensar se as pessoas de hoje em dia sabem o valor de ter um avô por perto?
Nenhum comentário:
Postar um comentário