terça-feira, 22 de novembro de 2011

O que é um idoso na sua vida?

Minha mãe perdeu seu pai aos 6 anos, sendo assim não conheci meu avô paterno. Meu pai perdeu seu pai quando eu tinha 2 anos, sendo assim, posso dizer que também não conheci meu avô paterno. Ele me adorava, é o que dizem meus pais. No hospital quando ele estava internado, minha mãe diz que ele adorava quando eu ficava andando e pulando em cima da cama para brincar com ele. Um avô que sinto falta de ter conhecido. Minha avó materna faleceu quando eu tinha 15 anos, tive muito tempo para conhecê-la, mas ela não era, pelo menos pra mim, aquela pessoa que eu tinha muito contato. Fui uma das últimas netas para ela, talvez por este motivo eu não fosse uma das mais queridas. Nunca consegui conversar muito com ela. Era debochada e engraçada, lembro-me de algumas vezes ela mordendo o rabo da gata quando ela aninhava as suas linhas de tricô. Ela fazia geleia de mocotó e depois que a perdi, nunca mais gostei daquele doce. Não consigo sentir um gosto bom em nenhuma geleia de mocotó. É como se a geleia dela fosse feita de outro ingrediente. Eu me esbaldava quando ela fazia. Mas hoje, não tem igual em lugar algum.
Quanto a minha avó materna, desde pequena sempre fui sua preferida. Lembro de quando comecei a pré-escola, se leram o meu post sobre a garoa, sabe o quanto eu não gostava de ir à escola. Porém, quando comecei a cursar a minha primeira série, conheci a professora que me fez gostar das aulas, olhos azuis, cabelos claros, olhar de mãe, sempre acolhedor e paciente. Ela era linda! Eu adorava ir a escola, e foi nesta época que ganhei a minha primeira lousa de brincar.
Fui dar aulas para minha avó materna e descobri que ela adorava fazer as mesmas lições que eu fazia na escola. Eu via minha avó todos os dias, ela era muito baixinha, calçava 33, tinha os cabelos da cor de mel e seu perfume sempre chegava antes dela em casa. Não adiantava se esconder bastava ir fungando e achava a vovó escondida na lavanderia, atrás da máquina de lavar ou do tanque, era fácil pra ela, pois media mais ou menos 150 centímetros, eramos da mesma altura, ela com 52 e eu com 7 anos..  Levava-me para a casa dela, eu passava a lição do meu dia de aula na lousa, ela ia copiando no seu caderno verde de caligrafia, depois fazíamos a lição de casa juntas, cada uma no seu caderno e no dia seguinte corrigia pelo meu caderno que a professora tinha visto. Depois das lições colhíamos cana no quintal da vovó e ficávamos chupando cana e olhando o sol ou a chuva que caía no plantio. Tinha chuchu, bucha de banho, cana, bananas, uma plantinha que ela com as sementes fazia creme para o rosto, ah, não posso me esquecer do pé de morango, este às vezes tinha morangos, só quando a minha irmã Patrícia não tinha passado perto, se estava com morangos vermelhos ela comia escondido, e se estivessem verdes ela guardava para levar para casa. Como sempre tinha entre 1 ou 3 morangos, quase nunca víamos morangos no pé.
Minha avó tinha 2 bonecas que me lembro, uma que ela havia comprado careca e tinha colado uma peruca no formato panelinha e outra daquelas bonecas sinistras que hoje em dia aparecem em filmes de terror, esta era sempre a filha dela, mas com a condição de eu não pentear os cabelos (peruca) da minha filha. No Natal de 1986 eu ganhei uma boneca preta, que deitava e fechava os olhinhos, ela tinha bico de bebê que chora e cheirava tuti-fruti, foi ela quem escolheu a boneca para minha mãe comprar, ou seja, continuei mãe da que nunca podia pentear os cabelos. Se bem que, a que passou a ser seu bebê tinha os cabelos bem crespos e também não dava para pentear. Minha avó faleceu de acidente em maio de 1987, ela já sabia escrever uma carta, pois depois de adulta fiquei sabendo que ela era analfabeta, por isso gostava tanto das minhas aulas e lições. Às vezes deitávamos na varanda e ficávamos achando pessoas, objetos ou animais nas nuvens, víamos de tudo, desde pássaros, a uma escola completa, com carteiras, cadeiras e até uma professora que passava lições no quadro-negro.
Olha a bandeira da escola ali vovó, e tentávamos cantar o hino em gemidos e sons silábicos sem complemento que terminava sempre em gargalhadas ou uma bronca que eu ganhava. Eu gostava de ficar deitada no seu colo e fazendo carinho na pele molinha do seu braço que eu achava tão macia. Muita gente deve pensar... OH Meu Deus! Eu adorava ficar beliscando devagarzinho aquela pele murcha e macia. Até hoje quando sento perto de uma senhora idosa, tento ficar perto para sentir os braços e as mãos dela. Tenho vontade de beliscar. Eu tinha 7 anos quando à perdi, mas posso dizer que vivi cada minuto que pude ao seu lado, adoramos um dia que minha mãe foi a formatura da minha madrinha e pediu que minha avó passasse a noite comigo e com a Pathy, pintamos as unhas de todas as nossas bonecas com esmaltes coloridos, só o blush e a sombra delas que ficou meio estranho feito de esmaltes, mas ainda assim ficaram ao nosso gosto, muito mais femininas e bonitas. Na hora de dormir, como sempre, amarramos todas as bonecas com fita crepe ou pedaços de roupas para que elas não viessem nos matar maquiar enquanto dormimos. Minha mãe não ficou muito feliz quando achou as bonecas guardadas. Não sei por que, só me lembro desta vez minha mãe ter nos deixado com ela.
Depois do falecimento desta minha avó não tive mais vontade de estudar, nem de comer, e me lembro da minha mãe grávida e eu saía na rua procurando minha avó atrás dos postes e no quintal das pessoas pensando que ela apareceria brincando e dizendo que era mais uma brincadeira, para acabar com esta brincadeira logo, eu usava os vestidos dela que minha mãe havia levado para nossa casa, eu pensava, ela vai ficar muito brava e vai vir tirar de mim, os sapatos então, eu nunca tive tantos tamancos para brincar. Hoje penso no quanto tornei as coisas mais difíceis para minha mãe, que trouxe para nossa casa a benzedeira para resolver o meu problema e ela disse: - Ela só quer chamar a atenção! Deixe-a.
Depois disso, adotei um avô!
explicando melhor, quando minha mãe veio da Bahia com seus 13 anos, veio para trabalhar de domestica na casa das pessoas e "tentar a vida" em São Paulo. Minha tia mais velha já tinha vindo há mais tempo e minha mãe veio depois, seu maior sonho nesta época era buscar minha avó, que tinha ficado na “terrinha”, forma carinhosa que minha mãe chama sua cidade natal, Ilhéus, Itabuna, Vitória da Conquista... Em outro Post falo das histórias da minha mãe desta época, que morro de rir de ouvi-la dizer. Ela trabalhou alguns anos na casa deste meu avô, que inclusive foi lá que veio a conhecer a família do meu pai, ele era sogro da minha tia Sônia, irmã de meu pai. Lindo! Olhos azuis como o céu, poucos cabelos brancos na nuca e uns fiozinhos que brilhavam em cima da careca reluzente. Um dentão de ouro que também brilhava várias vezes durante nossas conversas. Ele sempre lia um pedaço da Bíblia quando estávamos juntos e me explicava aquele trecho. Depois tomávamos um café fresco que ele passava, não tem café mais gostoso que o dele, até hoje. Ele fervia o pó junto com a água e depois passava no coador de pano. Ele passava o café e gritava para minha tia na casa de cima... Tem café freeeesco! Dificilmente as pessoas não desciam para tomar um cafezinho ou subíamos eu e ele com a garrafa para a cozinha da tia para todos tomarem o café gostoso.
Quando tinha mais tempo, pedia para ele contar alguma de suas histórias de 1926, ou de 1930 e bolinha. Ele sempre contava a história de alguém em que ele fez parte por um momento. A gravidez de uma amiga do Paraná, ou a doença de um amigo de Tupã, ou o casamento de uma neta adotiva de ... Ah! Não me lembro o nome da cidade. Era sempre muito bom e tinha a sensação de que saía de sua casa pronta para mais uma semana cheia de trabalho que seria moleza para mim. Ele me enchia de energia e vigor e me deixava tão recarregada de felicidade..
Sempre me ponho a pensar se as pessoas de hoje em dia sabem o valor de ter um avô por perto?

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